terça-feira, 29 de setembro de 2026

Para o meu amor pós funeral

Eu não sei qual a sua idade atual, hoje eu tenho 45 anos, está calor, nem parece que o Outono começa amanhã. Foi um Verão muito quente este que nós tivemos, bem mais quente do que aquele em que éramos namorados. Sempre tive saudades dos nossos momentos, mas você nunca mais conversou comigo direito, quiçá me perdoou. 

Segui me encantando cada vez mais pelo seu sorriso. Ah, o seu sorriso! Por várias vezes, fechei meus olhos e me lembrei do dia em que você perguntou se a bonequinha podia morar no seu coração. Eu senti medo, um medo de não dar conta… Você sabia que eu ainda estava machucada. Mas eu aceitei e estraguei tudo o que poderia ter sido. Estraguei a nossa “loucura”, a nossa autenticidade, a sua cumplicidade. 

No momento em que estou escrevendo, ainda estou solteira, não sei quais os desígnios de Deus para mim, mas o meu maior sonho é ser digna de receber o sacramento do matrimônio, formar uma família, cuidar dessa minha família com toda dedicação e amor. Por enquanto, não fui merecedora, no entanto recebi a graça de ser mãe e isso é incrível, apesar de não ser fácil criar e educar um mini ser humano, mas é fantástico, meu filho é sensacional! 


Nesses anos, por muitas vezes, tentei contato com você, tentei seguir minha vida, partilhar esse amor gigante que carrego comigo, porém, as "inquietas sombras" sempre deram um jeito de voltar. Aquela tarde de novembro, de fato, veio comigo para o túmulo. 


Sempre me questionei se eu seria suficiente para você, para este homem que você se tornou. Acredito que sim, apesar de você poder ter a mulher mais virtuosa de todas em todos os aspectos, e eu estou longe disso. Você só não terá a que mais amou você, a que mais pediu para que Deus o abençoasse, protegesse, cuidasse e o fizesse feliz. Eu fui essa que jamais dormiu um dia sem rezar por você. 


Agora fiz 46 anos, estamos no Inverno e hoje está nublado. Odeio sábados nublados, aliás, não tenho muito apreço por finais de semana, me deixam meio melancólica e sinto saudades do tempo em que morei na mesma cidade que você. Hoje é um desses dias saudosos e para não te mandar mais alguma mensagem sem resposta, preferi vir aqui continuar esta "carta póstuma". 


Às vezes procuro ter notícias suas com algum amigo ou conhecido em comum, são notícias rasas. Nunca tive coragem de me abrir com algum deles e falar sobre o que sinto por você, acredito que isso também seria irrelevante. 


Ontem um avião caiu no interior de São Paulo e me deu muita vontade de falar com você, tenho medo que você se vá antes de mim, acho que me desesperaria com uma notícia dessas, mais uma parte minha partiria, essa, junto com você. Nós já não temos mais o frescor dos vinte e poucos anos, as pessoas estão partindo muito jovens...


Estamos agora em setembro, quase chegando a minha estação favorita. Estou em campanha política, talvez você tenha percebido que eu me interesso muito por este assunto. Tenho muito orgulho por jamais ter votado ou apoiado qualquer candidato ou partido de esquerda. Odeio o socialismo e abomino qualquer teoria que se pareça com as que os comunistas criaram. 

Desde abril me convidaram para fazer parte do diretório municipal do Partido Novo e aceitei esse desafio. Não era pretensão minha sair candidata, mas não tive como escapar. Tomara que seja a última vez, não gosto de fazer campanha para mim. 


Estranho escrever como se você se interessasse em saber, mas é assim, quando a saudade aperta demais, eu venho conversar com você por aqui, e hoje tá foda! Não que eu esteja triste, ou para baixo, mas hoje a saudade apertou bastante e parece até que me falta um pouco de ar.


Queria que você soubesse que eu me tornei uma mulher respeitável e admirável para muitas pessoas relevantes aqui. Recebo muitos elogios sobre como sou inteligente, culta, elegante. Na verdade, gostaria mesmo que você se orgulhasse de mim por alguma coisa. Fico extremante satisfeita com os frutos que tenho colhido, não foi fácil amadurecer sem meu pai ao meu lado, talvez, essa seja a maior provação, ele não estar aqui para me amparar nos momentos complicados e decisivos, crescer sozinha e me tornar notável doeu um bocado. 


E bem louco tudo isso, escrever sem nem ter a certeza de que um dia você irá sequer ler. Queria mesmo era poder conviver com você, viver tudo o que eu gostaria de viver com você. Certeza de que uma hora dessas, nós estaríamos falando sobre como foi o nosso dia, comentando sobre assuntos importantes da geopolítica atual e dando boas risadas, nós somos bons em fazer as pessoas sorrirem. 


Por hoje é isso... Essa saudade que cisma em aparecer e apertar. Imaginar como seria compartilhar a vida com você, como seria a nossa casa, se teríamos filhos, cachorros, se ainda gostaríamos das mesmas músicas, ver você sorrir... O sorriso mais bonito que eu já vi até hoje foi o seu. 


Agora começou a doer por aqui, é melhor eu me ocupar. O plano sempre foi sermos, infalivelmente, os loucos mais sensatos e felizes que já existiu, meu para sempre, príncipe Bruno Louquinho. 


“Nem eu, nem tu, nem ela, nem qualquer outra pessoa desta história poderia responder mais, tão certo é que o destino, como todos os dramaturgos, não anuncia as peripécias nem o desfecho. Eles chegam a seu tempo, até que o pano cai, apagam-se as luzes, e os espectadores vão dormir. Nesse gênero há porventura alguma coisa que reformar, e eu proporia, como ensaio, que as peças começassem pelo fim.”

Gosto de citar Bento Santiago, vulgo Dom Casmurro porque foi a mais bela minissérie que já assisti, e no ensino médio fiz parte da promotoria de Capitu, ali falhei, assim como falhei com você. Capitu pode até não ter traído, porém a mente dele o traiu, o enlouqueceu e isso bastou para que ele nunca a perdoasse e não tivesse afeto pelo filho. Infelizmente, nessa história todos morreram e sofreram sozinhos. 


Hoje a saudade está cortante, sufocante e eu preciso desabafar. Como eu gostaria de sentir o calor do seu abraço, o gosto do seu beijo, o carinho do seu aconchego. A vontade é de pegar um carro e ir até você e gritar: caralho você não consegue perceber que eu amo você? Deixa eu pelo menos conversar com você. Mas você zombaria de mim, sei lá, talvez seus amigos. 

Ah, dane-se, eu sinto tanto a sua falta, a falta de conversar com você e hoje eu só queria isso, ter você aqui bem pertinho de mim. Vou tentar dormir e pedir à Deus que arranque essa dor, esse sentimento, tudo relacionado a você de mim. Você sequer responde às minhas mensagens, duvido que atenderia um telefonema meu. Você acabou com a princesa Snow White e não existe princesa cética. Tá doendo, Bruno, aqui no peito tá doendo muito mesmo. Chorar entorpece, tomara que eu durma logo. Eu odeio sentir tudo isso por você assim, me desculpa, mas hoje tá realmente foda. 


Já estamos em 2025 e cada ano que passa parece que o tempo passa mais rápido, os dias parecem não terem mais 24 horas, a semana voa e o final de semana me deixa, quase sempre desanimada. Verdade é que eu gostaria de ter alguém para encontrar e compartilhar a minha vida, criar os nossos momentos, passear de mãos dadas, sentir o coração acelerar, conversar sobre todos os assuntos, escutar as nossas músicas, assistir os nossos filmes... Alguém, de verdade para acrescentar na minha vida e amar, mas sou desafortunada quanto a isso e também perdi o interesse por qualquer pessoa. Prefiro continuar acreditando que um dia será você novamente. Enquanto isso não acontece, finjo que você ainda lê meus textos, as entrelinhas dos meus escritos, crio cenas onde nós estamos juntos e felizes como uma família. Por falar nisso, já não faço mais questão que as alianças sejam "H Stern", com você poderia ser até de arame, desde de que fosse para sempre, até que a morte nos separe. Tenho certeza de que só ela, a fria e temida morte irá me separar de você, pelo menos nesta instância eu não estarei mais pensando em você, quando ela vier. 


Hoje faz 10 anos que meu pai faleceu. Eu acho que nós nos seguíamos no Facebook essa época. Indubitavelmente foram os piores meses que eu já vivi até hoje. Eu não sei se nas datas redondas o sentimento se intensifica, é que dessa vez tá doendo como se fosse primeira vez. Sorte a sua ter seus pais por perto. Engraçado como me lembro perfeitamente do dia em que te conheci, na sua casa, você me levou ao banheiro e depois eu fiquei sentada no chão da cozinha conversando com sua mãe e brincando com o Pitty e com a Belle. Na cozinha tinha um relógio enorme na parede. Tinha outra pessoa na cozinha com a gente, mas dessa eu não consigo me lembrar. Confesso que hoje vim escrever um pouco sem vontade, tudo dói por aqui e ainda não tenho me sentido bem nos últimos tempos. Minha saúde nunca foi das melhores, principalmente a mental. Hoje é daqueles dias que eu só queria que esses sentimentos não existissem, aqueles dias que eu deitaria no meu quarto e só sairia de lá quando aqui dentro estivesse menos despedaçado. 


Quando a solidão bate é quando eu sinto que meu amor nunca mais será de outra pessoa, a não ser você. Ele é todo seu, durante 20 anos ele sempre foi seu, o amor homem-mulher, sempre foi seu. A nossa história parece que nunca terá fim, Deus não seria tão cruel em me fazer sentir isso tudo sozinha e eu já deixei de ser maluca para criar um sentimento não correspondido. No fundo eu sinto que você também sente isso quando está sozinho, num domingo chuvoso e frio no seu quarto, por isso, dessa vez eu vou ter que dizer: eu te amo e Deus sabe o tanto que esse sentimento é verdadeiro, mas sem você, me faz doer e, por vezes, chorar até dormir. Até o dia em que eu irei dormir a última vez nessa vida. Aí será quando você irá receber todos os meus textos que estão guardados em segredo só para você. Só por hoje: eu amo você! 


Estamos em 2026 já, Verão, mas só chove e o tempo realmente tem passado muito rápido. Ano passado, por um momento de sorte, reencontrei alguém do meu passado e vivemos uma temporada bacana. Eu o amei, o admirei, o respeitei e foi o primeiro contato do meu filho com um relacionamento meu. Porém o "fuso horário" era complicado, nós tentamos, mas ele terminou, de maneira desnecessária, mas terminou. Fiquei triste, tentei convencê-lo a ficar, mas não deu. Como dizem, vida que segue. Cada um seguiu seu caminho. Durante esse tempo fui à Juiz de Fora, senti saudade, passei em frente ao meu prédio, vi o tanto de coisas que mudaram por aí. Mas alguma coisa me bloqueou totalmente, quase não quis sair de casa, eu não sou mais a "menina" bonita de antes, meu corpo está feio, já consegui emagrecer bastante, mas não aceito muito bem meu corpo e tive medo de, por acaso me encontrar com você em algum lugar. Com ele eu não poderia conversar com você, não poderia te abraçar do jeito que eu gostaria e talvez, caso isso acontecesse, seria a única e última oportunidade que eu teria. Ele era bacana demais para eu magoá-lo e vocês se conhecem. Talvez, além do corpo e da beleza, você também tenha sido motivo desse meu bloqueio. Óbvio que não falei isso para ele, mas falei que escrevo para alguma pessoa uma "carta"" Post mortem" que será enviada, dependendo das circustâncias, para o devido destinatário. É isso, você receberá está carta assim que eu não estiver mais aqui. Esse é o único script que eu tenho absoluta certeza de que não irá dar errado, e por favor, não o estrague indo antes de mim. 


Estamos em abril e logo eu farei 48 anos. Você cisma vez ou outra em surgir nos meus sonhos, são sonhos confusos, mas onde nós nunca conseguimos ficar um sem o outro, mesmo que alguma coisa tente impedir, no final sempre estamos juntos. Nunca sonhei com você tendo outra pessoa entre nós, sempre nós dois, tendo falta de ar, tentando nos aproximar e muita vezes com obstáculos gigantescos que tentam impedir, às vezes em pesadelos, mas no final, sempre conseguimos pelo menos, nos tocar e nos abraçar. Em todas as vezes que isso acontece eu acordo com uma saudade enorme de você, minha energia desaba consideravelmente, me faz faltar ar, o coração acelerar, por vezes choro para diminuir a saudade, relembro todos os nossos momentos juntos, e é incrível como eu me lembro de cada detalhe. É como se eu estivesse assistindo um filme na TV sobre a nossa história. Vem uma vontade louca de te mandar mensagens ou de te ligar, mas não tenho o seu número. 


Eu sempre pedi a Deus que eu não partisse antes de ter pelo menos uma oportunidade de conversar, pessoalmente, olhando nos seus olhos, para te contar tudo isso que eu sinto e guardo aqui dentro. Eu sei que vou chorar, que vou gaguejar, fica nervosa, ter crise de ansiedade, minhas mãos ficarão geladas, mas eu preciso que isso aconteça, nem que seja para te ver a última vez, te abraçar e ouvir que você me perdoou de todo mal que eu fiz a você. É isso, apenas isso e eu vou me sentir liberta desse mal que eu fiz a você, o cara mais incrível, mais autêntico, mais foda, o dono do sorriso mais perfeito que eu já vi e tive, o que eu pude ser eu mesma, que segurou minhas mãos no momento em que eu estava mais despedaçada naquela época. 


Essa noite eu sonhei a noite toda com você, eu acordava e voltava a sonhar  como se fosse uma tempordada com vários episódios. Nós estávamos numa casa que parecia a sua, e você era vizinho da minha irmã. A casa estava cheia de crianças, sua mãe estava lá também e nós estávamos juntos, como uma família, todo mundo se divertindo e as crianças enchendo aquele lugar. Depois eu estava indo à um congresso à trabalho e você estava lá, me apoiando, sempre ao meu lado, eu não precisava te procurar, era só eu olhar para o lado e você estava lá, sorrindo! E eu resolvi te mandar uma mensagem, sem a menor esperança que você fosse visualiza-la e muito menos responde-la. Mas Bruno, é tudo muito doido quando se trata de você, e o INACREDITÁVEL, o INESPERADO aconteceu, você me deu abertura para podermos conversar pessoalmente. E agora eu não sei o que fazer. Mas eu vou, eu preciso. Hoje, o sentimento é de alegria, o choro é de felicidade, de esperança, mas de medo também e de insegurança. Só que isso foi a oração que eu faço a anos para Deus, e depois de 23 anos, Ele me escutou e aqui estou, aguardando o seu contato para podermos nos rever e se caso eu não conseguir falar, aqui está tudo o que você precisa saber. O meu amor por você NUNCA deixou de existir e eu vou morrer com ele. 


Bruno, eu quero que você saiba que eu te amo demais. É sério, as pessoas falam eu te amo sempre, mas só quando a gente não pode mais falar isso direto para a pessoa, que a gente se toca o quanto isso é importante. Você é muito bonito e muito incrível, eu queria que meu filho, um dia fosse a metade do homem que você se tornou. 


Hoje eu não estou muito bem. Acho que o cansaço bate e a minha energia cai um pouco, e nos adias assim eu só queria ficar quietinha no seu abraço, só isso já bastaria para que eu me recarregasse. E isso seria tudo pra mim, o seu abraço. 


Estamos em Setembro de 2026 e acho que hoje será o último dia que lhe escreverei. Não importa mais se era para ser póstuma. É que meu coraçao apertou de um jeito inexplicável. Também não vou escrever muito. Tenho sonhado com você quase todos os finais de semana e isso tem me deixado com uma saudade gigantesca. Sei que já não somos mais os mesmos e que você não irá me dar abertura. 


"Antônio Braga foi pioneiro dessa cidade, um bravo que acreditou que existia vida na terra seca. Que insistiu e acreditou num sonho, mesmo quando todos disseram que ele tinha enlouquecido. O sonho é a coisa mais forte que existe e esse homem corajoso era o meu avô, que me contava história e que me ensinou a amar o solo, que mesmo árido alimenta nossa família até hoje. Ele me ensinou a andar de bicicleta também, e nesse dia, eu cai, e não quis subir na bicicleta de novo, e eu lembro que ele disse: - toda vez que a gente cai, por mais doído que seja, tem sempre que levantar. Ah vô, vai ser um tanto mais difícil pra todo mundo sem você. E hoje, nós realizamos o último sonho dele que é ser enterrado aqui ao lado da minha avó, dona Maria Inês. Cês vão ficar juntos de novo como queriam, na beira do rio São Francisco, que com sua água pura, leva tudo, até o pior dos sofrimentos. E obrigada vô pela última lição, um grande amor vence até a morte. Te amo!" 
Amores Roubados 

E lógico, a parte da raposa do livro o Pequeno Princípe e o Amor do Pequeno Príncipe:


" - (...) tu procuras galinhas? 
- Não - disse o príncipe. Eu procuro amigos. O que quer dizer cativar?
- É algo quase sempre esquecido - disse a raposa. Significa "criar laços".
- Criar laços?
- Exatamente - disse a raposa. Tu não és nada para mim senão um garoto inteiramente igual a cem mil outros garotos. E não tenho necessidade de ti. E tu também não tem necessidade de mim. Não passo a teus olhos de uma raposa igual a cem mil outras raposas. Mas se tu me cativas, nós teremos necessidade um do outro. Serás para mim único no mundo. Eu serei para ti única no mundo. (...)
- Minha vida é monótona. Eu caço as galinhas e os homens me caçam. Todos as galinhas se parecem e todos os homens também. E isso me incomoda um pouco. Mas, se tu me cativas, minha vida será como que cheia de sol. Conhecerei um barulho de passos que será diferente dos outros. Os outros passos me fazem entrar debaixo da terra. Os teus me chamarão para fora da toca, como se fosse música. E depois, olha! Vês, lá longe, os campos de trigo? Eu não como pão. O trigo para mim, não vale nada. Os campos de trigo não me lembram coisa alguma. E isso é triste! Mas tu tens cabelos dourados. Então será maravilhoso quando tiveres me cativado. O trigo, que é dourado, fará com que eu me lembre de ti. E eu amarei o barulho do vento no trigo. 
A raposa calou-se e observou por muito tempo o príncipe. 
- Por favor, cativa-me! - disse ela. (...)
- E o que é preciso fazer? - perguntou o pequeno príncipe. 
- É preciso ser paciente - respondeu a raposa - Tu te sentarás primeiro um pouco longe de mim, assim na relva. E te olharei com o canto do olho e tu não dirás nada. A linguagem é uma fonte de mal-entendidos. Mas, cada dia, te sentarás um pouco mais perto. 
- No dia seguinte o príncipe voltou.
- Teria sido melhor se voltasses à mesma hora - disse a raposa. - Se tu vens, por exemplo, às quatro da tarde, desde às três eu começarei a ser feliz! Quanto mais a hora for chegando, mais eu me sentirei feliz. Às quatro horas, então, eu estarei inquieta e agitada: descobrirei o preço da felicidade! Mas se tu vens a qualquer momento, nunca saberei a hora de preparar o meu coração... "


"Uma manhã a gente acorda 
E diz: 'Era só um conto de fadas...'
E a gente ri de si mesma.
Mas no fundo, não estamos sorrindo
Sabemos muito bem que os contos de fadas
São a única verdade da vida.



O tempo vai passar, nós iremos envelhecer, talvez a vida traga mais provações, muitas felicidades, "amores". Talvez eu encontre alguém que me fará companhia e você também terá alguém, mas eu jamais sentirei por alguém o que sinto por você, afinal, já se passaram mais de vinte anos, tantas coisas aconteceram, conheci outras pessoas, tive até um filho e nunca me esqueci de você. Nunca deixei de sorrir todas as vezes que me lembrava do seu sorriso, nem do que nós tivemos: as músicas, as mensagens, os nossos passeios, as idas à Churrasqueira, as vezes que você me buscou na faculdade, as idas na casa em que você morava, o Pitty, a Belle, o dia que dormi na sua casa, as vezes que você dormiu no apartamento em que eu morei, quando você quebrou minha cama, as flores que você me mandou, as brigas, o dia que você terminou comigo, o dia seguinte, o dia depois do dia seguinte... a valsa. Nem as vezes que eu sabia que você estava debochando de mim por sempre tentar me aproximar de você, o quão patética você deve ter me achado. Agora também pouco importa, eu já não estou mais aqui. Nem eu, nem o amor que senti por você.


Meu pra sempre príncipe Louquinho, agora eu estou em outra instância, reze pela minha alma, peça à Deus que tenha misericórdia de todos os meus erros e você, me perdoe também, eu era imatura e leviana demais, mas eu não deixei de amar você do meu jeito, um dia sequer da minha vida. Se cuida e também se lembre do meu sorriso, sorrindo. 


"O teu riso

Tira-me o pão, se quiseres,

tira-me o ar, mas não

me tires o teu riso."

Pablo Neruda


(...). Até um dia! E sinto muito por você nunca ter me deixado voltar para a casa da bonequinha. 


Um beijo da sua sempre bonequinha,


Snow White Adormecida! 


Bia Flor 


quinta-feira, 25 de junho de 2026

O Verso Preterido

    Em plena vésperas da Semana Santa elas resolveram se juntar e entrar em ação. Cara, eu não queria que elas surgissem na "nossa" história, mas você as provocou absurdamente. Todo o seu ego me levou quase para o fundo do poço, mas eu me salvei antes que os sentimentos pudessem se tornar piores. Beatriz de Dante JAMAIS poderia ter os sentimentos de agora. Porém as peças do quebra cabeça começam a se encaixar perfeitamente, uma a uma, e a figura não é nada agradável. Ambas são puro poder, domínio e sordidez. Falta de aviso? Isso não esta no seu dossiê cronológico para apontar seus dedos e me culpar. Eu não deixei rastro. Sinto muito, mas no quesito investigação NINGUÉM nesse meu mundo são melhores que elas, as minhas S.W.A.T.

    Que vacilo, hein? Tentar controlar uma mulher doce, gentil e INTELIGENTE, a mais inteligente e incrível que você já se relacionou. Será? Tudo soa tão falso agora. As suas lágrimas para tentar me seduzir com seu jeitinho de "príncipe empático". Arrhg, como eu odeio essa palavra. EM-PA-TI-A! Esse vernáculo pobre e tendencioso. O vernáculo do povo das lutas sociais é, singularmente, patético.

    "BEATRIZ, você está invadindo o meu espaço!" Quanta ousadia em me chamar de BEATRIZ! O nome mais bonito do mundo, mas que nunca foi permitido você usá-lo comigo. Deveria referenciar-me como Marquesa do Lenheiro com toda a pompa que me é atribuída. Mas você ousou, como quem ousa controlar uma fera indomável sentada num tribunal do júri por ter cometido o crime da entrega mais bonita e legítima que já lhe acontecera. Colocou-a perante um júri vil e emocionalmente perturbado. As alegações infundadas, contraditórias e pueris, friamente calculadas para tripudiar sentimentos tão nobres, intensos, puros, verdadeiros, vulneráveis e transparentes. 

    Porém, mesmo sentanda em frente ao júri a tranquilidade transparecia em seu semblante, jamais faria um "mea culpa", pois já descobrira o seu diagnóstico controlador, tóxico, exibicionista, tal qual um narscista nato. Jamais seria mais uma de suas presas. 

    Equecera que ela se cuidava e que por mais intenso que parecesse, algo em sua intuição a fazia pisar em cacos de vidros. Era muita bondade em meio a tanta dissimulação. 

    Investigara cada ex tachada de louca, descontrolada e emocionalmente dependede: suas presas. E sentiu nojo, pela primeira e única vez veio o ressentimento. Seu teatro repleto de lágrimas só confirmava o quão faltava testosterona e sobrava o contraditório dos fatos. 

    As questões que mais a instigavam eram: Por que ele não cresceu profissionalmente? Por que se contradiz de tempos em tempos com versões diferentes, às quais um mentiroso nunca conseguira sustentar? Se lembra, exatamente de cada perguntas e respostas diferentes sobre o mesmo tema, com o passar do tempos e das conversas madrugada à dentro e sem um conjunto completo de documentos. 

    Sua farsa caiu por terra! Descobriu as traições jamais impessáveis, a sordidez com que tratava as pessoas que se entregavam legitamente à você. De príncipe à carrasco, de frágil à destruídor de mentes. 

    A narrativa pífia do término não fazia o menor sentido com as atitudes da relação. 

    Dante caiu por terra e a fez voltar ao seu inferno, porém purificada, pois não iria retornar ao casulo, isso sim, mérito seu, onde vivera por muitos e muitos anos. 

    Um ator que se confunde com o personagem, mas que é aplaudido apenas por aqueles que o adulam, e ela não faria mais parte da sua platéia como no pretérito imperfeito. 

    É, meu caro, tornou-se Virgílio nesse círculo do inferno, talvez até o próprio Filippo Argenti ou o senhor Morningstar, mas a sua capacidade intelectual não o leverá a saber e nem se interessar por estes personagens. 

    Beatriz foi liberta, assim como na oração: "livra-nos de todo mal", o mal trajado de beleza, a qual já não encanta mais. Evelheceste nesse meio do caminho e seu coração virou podridão. De manipulador, tornou-se manipulado. E quanto à isso, aprenda: pode até existir Beatriz sonsa, mas jamais substime a inteligência de Beatriz de Dante.

    Termino me desculpando: meu amado Dante, perdoe-me por tê-lo comparado a um dos seres mais ojerizados que já conheci: de fato, a antessala do inferno pertence àqueles que em tempo dífíceis, preferem a imparcialidade que causa vômito, assim, como em Apocalipse 3:15,16 - "Assim porque és morno, e não és quente nem frio, vomirtar-te-ei da minha boca". 

    Reze por suas vítimas para que, ao final de tudo, Deus Justo e Poderoso tenha misericórdia do seu plantio. 

Requiescant in pace, Morningstar!


Beatriz absolvida, sem Dante 

Música - Vampire - Olivia Rodrigo 

quarta-feira, 5 de fevereiro de 2025

Escrevo te

 " - Juro! Deixe-me ver os olhos, Capitu.

Tinha me lembrado a definição que José Dias dera deles, "olhos de cigana oblíqua e dissimulada." Eu não sabia o que era oblíqua, mas dissimulada sabia, e queria ver se podiam chamar assim. Capitu deixou-se fitar e examinar. Só me perguntava o que era, se nunca os vira; eu nada achei extraordinário; a cor e a doçura eram minhas conhecidas." 

As citações de Bentinho sempre irão fazer parte de algum contexto nas estórias desta que passa longe de ser uma Capitolina, apesar de achá-la um dos personagens mais fantásticos da literatura.  Às vezes se esbarram no gosto como por exemplo, o próprio Bento Santiago, um tipo peculiar com  semblante de candura, mas que a fazia suspirar e sentir um ciúmes agridoce. Ele sabia, no fundo, como deixá-la fora do prumo, mesmo se fazendo de besta. E em contrapartida, a beleza ardente de Escobar, cujo olhar a fazia se sentir despida. 

Os olhos nunca foram de dissimulação, pelo contrário, são olhos de jabuticabas redondinhas e madurinhas no pé. Olhos que gostam de mergulhar bem fundo e penetrar lá no âmago. Até lembram um pouco o olhar despudorado de Escobar, mas não teve a oportunidade de lançá-lo. Porém, já o colocou na lista de desejos alcançáveis. 

Perdoe-me, Bento Santiago da esquecível, mas nunca inesquecível célebre tarde de Novembro que eu nunca esqueci, mas agi como os acusadores condenaram Capitu: uma traidora. Entretanto, é sabido que jamais a condenei e nem a condenarei, pensamentos não são "traíveis", apenas confessáveis se a consciência sentenciá-los, e não farei um "mea culpa" se deleitei-me deles e neles. 

Não foi com Escobar, pois ele esteve apenas na mente de Bentinho. Até então tinham algumas semelhanças pois ambos eram platônicos, imaginativos, intocáveis, apesar da vontade ser de não apenas tocá-lo, mas de tê-lo bem perto, sentindo a temperatura aumentar e a respiração ofegar. O cheiro, o gosto, a textura da pele e dos cabelos. O tamanho do sorriso, a estatura, o porte e a intensidade do abraço. 

Foi assim, sem esperar, sem combinar, sem maiores produções, foi como uma negligência de quem se distrai e, num lapso muito curto toma um xeque mate depois de anos e anos de estratégias furadas tentando mexer uma peça de xadrez para se desencurralar. 

Como um desejo que se roga todos os dias, com os olhinhos fechados pedindo aos céus que se realize e numa despretensão, se é atendido. 

Talvez também, como aquelas mensagens que a gente envia sem esperar nada, mas querendo esperar tudo e de repente, eis que surge o presente mais desejado de várias cartas enviadas no Natal e não atendidas, por causa de algum mau comportamento que nem se lembra mais ter cometido. 

E foi assim, tipo Olavo e Bebel na cena mais previsível de todas, mas que fazia o coração dos que torciam por eles disparar, com o beijo que a calava no meio da frase antes que saísse algo inapropriado. "Repete! Eu sou uma piscininha." 

Não deu tempo de emagrecer, se maquiar, pentear os cabelos direito, procurar uma roupa adequada... Foi assim, meio Bridget Jones, totalmente atrapalhada, estabanada, sem saber o que fazer com as mãos, o que falar, como agir, como respirar direito com a intensidade daquele beijo, parecia até que era a sua primeira vez de tão tola que pareceu. Nunca imaginou que Monsieur Matelas pudesse fazer um estrago desses. 

Monsieur, aguardo-vos
para uma retratação e ratificação e muitas outras taças de vinhos, preciso continuar plantando aquela sementinha e mostrar que eu também tenho um ladinho que gostaria que você conhecesse. 

Despeço-me afirmando que "para te escrever eu antes me perfumo toda" e escrevo sorrindo. 


Um beijo,

Dra. Bia Flor 


Música - SZA - BMF

quarta-feira, 10 de abril de 2024

Que hub!

Ela nunca foi muito fã de caras loiros dos olhos claros. Raríssimas foram as vezes que se envolveu com algum com essas características, apesar do destino ter escolhido um assim para o genitor do seu filho. O tipo é tão atípico em seu mundinho, que quando estava grávida imaginava uma criança morena dos olhos verdes, ou clara dos olhos pretos e a genética mandou um loirinho dos olhos castanhos claros. Nem cá, nem lá. 

Quase nulos eram os pretendentes parecidos com os príncipes da antiga Disney nada "woke". Até ela mesma, nunca curtiu as princesas, preferia as bruxas, bem mais complexas, elaboradas, sofisticadas e adoentadas psicologicamente. Quanto glamour! O apelido "Snow White" surgiu porque àquela época era a única princesa morena que existia. Nela não há resquícios de princesa, fazia mais o estilo Betty Boop, ninfeta culta, noviça espevitada, tanto que a bio do "Orkut" era: "nada aqui é low profile", seguida de "não add sem scrapt". Sempre fez o estilo pseudo tímida. Engraçado como as coisas mudam com a maturidade, outras, nem tanto. 

Atraia-se por homens exacerbadamente bonitos, esquisitos, inteligentes ou irritantemente perturbadores. Neste restrito rol de "qualidades", a maioria eram morenos ou, pelo menos longe dos tão sem sal "loiros dos olhos claros". E até hoje, o tal "Bento Santiago" da vida real é um moreno lindo, com o sorriso mais maravilhoso da face da terra. 

Sendo assim, e sendo agora, coincidência ou não, época de pré campanha eleitoral, pessoas em comum se esbarram, surgem novas figuras, nomes ressurgem e o acaso nunca é por acaso. 

Tem escutado demais o nome do "de cujo", ela mesma já o mencionou em alguma oportunidade profissional apenas para "especular" se anda bem cotado, cogitado, requisitado, desquitado, solteiro ou descasado como "dantes no quartel d'Abrantes". 

A figurinha só ficou conhecida na última eleição; como as pessoas são distraídas e têm memória curta! Ela já o havia notado quando ainda tinha cabelos meio compridos, quando as chances de qualquer tipo de contato eram inexistentes e ela estava disponível para viagens sem volta e até ir ao banheiro sozinha. Cruzava os dedos para algo dar errado ou até certo, dependendo do ponto de vista de quem iria sair lesado daquilo, que só de olhar já se via que não combinavam nem no branco dos olhos. 

Ela não só o havia reparado, como a louca da amiga mais louca já comprara a loucura dela. (Acho até que fará novas loucuras até o pleito terminar). Vinho, chocolates e o @. Quanto falta de criatividade e excesso de ousadia. Algum de vocês souberam deste feito? E isso foi 1 ano antes daquelas
eleições onde ele estava em voga. 

Quatro anos depois ele já caiu no esquecimento da mulherada desatenta e tomou um novo lugar no pódio eleitoral: a aversão, o que, contraditoriamente, o tornou mais próximo dela nem que seja só o nome, a fila da farmácia e um grande amigo. Que hub! 

E que os conluios se iniciem, amém! 

"Who are you gonna be
When you step outside?
You gotta make that lightning strike (...)"



Bia Flor


Música - Strike - Little Monarch

sábado, 13 de janeiro de 2024

Fascínio subjulgante

Ele a colocava medo só de ouvir seu nome. Todos afirmavam que era um carrasco, nada justo e as provas eram, extremamente, difíceis. Ela o conhecia apenas de vista, mas torcia para que jamais o conhecesse de verdade. Quem sabe, por sorte, ele pudesse não ser seu professor. De vista carregava uma péssima impressão e, apesar dos pesares, era esta que havia ficado. 

O tempo passava e ela temia a proximidade e a possibilidade de encontrá-lo parado no meio da sala de aula, como um dos seus professores. E como o pensamento atrai e o sentimento cria, aquela sina aconteceu. No seu último ano deu de cara com ele e não tinha como escapar, nem pela manhã, nem à noite. Era ele e pronto! O destino fadado ao fracasso seria certeiro porque com ele não havia misericórdia.

E assim seguiu seu destino, temendo, não entendendo a matéria, indo mal nas provas e sentindo desespero. 

Meio do ano e todo caos estava formado. Sem esperança alguma, sabia que seu fim seria o mesmo daqueles que enfrentaram a forca ou o fogo, em praça pública, se continuasse calada sem coragem de pedir ajuda. 

Confidenciava esse pavor a uns colegas próximos a à sua psicóloga e, se sentia a maior incompetente por não tirar uma nota mediana que fosse. A vontade de frequentar as aulas iam diminuindo cada vez mais e o ódio pela matéria era cada vez mais gigante. Não via solução, nem luz no final do túnel. E não poderia ser reprovada, isso seria a maior vergonha para os familiares e o troféu para seus inimigos, que não eram poucos. 

Até que o diabo resolveu mordê-la e os anjos começaram a rir da decisão patética e previsível que ela pretendia tomar. Porém, pura de coração, não teria a coragem de abordá-lo daquele jeito. Resolveu, juntar o resto de suas forças e  se dedicar mais às aulas dele, mesmo que tivesse que abrir o cérebro para entrar alguma coisa naquela sua cabeça de vento.  E foi assim. 

Todavia, o diabo que a havia mordido, vira e mexe tirava a atenção dela e focava em lugares e coisas que a deixavam magnetizada. O jeito de sentar na beirada da mesa para explicar a matéria destacava as coxas grossas e bem delineadas, mesmo sob o tecido da calça bem cortada. Ao virar para o quadro, ela o fitava esfomeada imaginando o que estaria debaixo daquele paletó. Às vezes, parecia que ele lia seus pensamentos e o tirava, aguçando mais aquela mente atormentada. 

Ao se sentar para fazer a chamada de presença, quando dizia o nome dela, quase não se ouvia a voz abafada, o que piorava, pois ela, várias vezes tinha que aumentar o tom, o que fazia com que ele a olhasse e notasse as bochechas enrubescidas. 

As semanas iam passando conforme o tempo, algumas apressadas, outras entediantes e os pensamentos iam invadindo cada vez mais aquele indivíduo que, aos poucos se tornara um tanto menos comum. À esta altura, ela já havia conjecturado situações inenarráveis entre eles. Porém, as notas continuavam ruins e o desespero bateu à porta. Por sorte não foi só à porta dela, o que a animou deveras e, pela primeira vez, o anjo lhe sorriu. Ele propôs algumas aulas onde explicaria os enunciados das provas, aulas para poucas e seletas pessoas, e neste golpe de misericórdia ela foi uma dos contemplados! 

Sempre fora vaidosa, adorava usar sapatos elegantes e até extravagantes, mas para essa primeira aula, que seria numa das salas do enorme escritório, para não chamar atenção demais, resolveu ir mais simples nos calçados. Eram um total de quatros alunos numa mesa retangular onde ele, sendo o líder, sentava-se na ponta, assim teria a visão de todos e vice-versa. E assim se decorreu a primeira aula. Como tarefa, eles levaram provas já ministradas para fazerem em casa. Aliviada, mal sabia que ainda enfrentaria desafios. Contando com as próximas aulas do mesmo estilo, recebeu a notícia de que, algo havia o desagradado e ele não daria mais as aulas para todos os quatro. Taxativamente, eliminou dois, logo, restaram dois. Desesperada, seu pensamento negativo a colocou na lista dos eliminados, mas o anjo estava de boa veia e ela não foi um dos excluídos. 

Próxima aula apenas dois alunos na mesma sala de reuniões. Agora não teria como fugir, se sentaria mais próxima dele. A produção foi bem mais elaborada. Banho tomado, cabelos penteados, pele macia e muito perfumada. Ao se sentar, sentiram-se os respectivos perfumes que enebriaram o ambiente. O cheiro de cigarros também podia ser sentido, todos ali fumavam na época, e a bala de hortelã aliviava o hálito que, inevitavelmente, ficara próximo. Foi a primeira vez que imaginou verdadeiramente beijá-lo, o que a fez suspirar e sentir o quão frágil aquela situação toda a tornara. No final da aula, ele deu uma prova para que eles resolvessem. Ela se saiu bem e ficou feliz, percebeu que aquilo era recíproco e, o viu como uma presa indefesa perante a aura imponente que a vitória momentânea havia criado em torno dela. A partir dali, a ideia de uma terceira aula se esvaiu, mas a promessa de que ele estaria ao lado dela no último teste foi anunciada. E ele cumpriu. 

Ali já sabiam, entre eles, que algo os instigava. As almas já haviam sido tocadas e não existia mais beneficência, apenas o resultado interessava e a vontade louca de extravasar todo aquele sentimento que sufocava aqueles corpos. 

E, por mérito, ela foi aprovada. Não houve troca de favores, nenhuma promessa, nenhum contrato. Ela foi para casa, mas no seu íntimo o desfecho não poderia ser esse, não apenas esse, precisaria encontrá-lo outras vezes, nem que fosse por acaso. As paixões não podem terminar assim, e, para si mesma, admitiu-se apaixonada por ele. 

Os dias passavam e a vontade de vê-lo a consumia como febre que faz padecer os corpos doentes. Assim se sentia, insanamente doente, e o único remédio para esse mal era vê-lo, apenas vê-lo. 

Mesmo fraca, levantou da cama e foi, formalmente e pessoalmente, entregá-lo o convite de formatura como forma de gratidão e alívio para sua necessidade. Entrou no elevador, desfilou pelos corredores e chegou até à sala dele, o local onde todas os episódios foram criados em sua mente. Ela o entregou, eles conversaram um pouco e ela se foi, não muito satisfeita, o destino não jogava a favor.  Porém, a história não pode terminar assim. Nenhuma paixão fora em vão até ali, apenas as platônicas, e definitivamente, aquela não se encaixava neste quesito.

E mais uma vez os dias iam passando, uns entediantes, outros menos. O ano ia terminando e ela teria que ir embora, mesmo que temporariamente. Aquilo a angustiava profundamente. A sensação de adeus era a pior e nada a entusiasmava.

Contudo, o diabo, aquele diabo que a mordeu lá no meio desse relato, resolveu arrancar um pedacinho dele. Óbvio que ela não sabia, mas com o convite, agora ele tinha o endereço dela e a sorte havia sido lançada. E numa dessas tardes de verão, abafadas, nubladas, sem graça, onde o chove e não molha só serve para atrapalhar os cabelos, assim que ela havia acabado uma produção mediana, porém alinhada para ir à padaria, inesperadamente, o interfone tocou. Por pouco ela não o atendeu, sempre detestou receber visitas que não avisavam que apareceriam, e de maneira nada entusiasmada e com muita má vontade, atendeu o interfone. Mal acreditava que aquilo estava acontecendo. Nos segundos que o elevador chegava, suas mãos tremiam de nervoso e não encontrava uma posição adequada para fingir abrir a porta com naturalidade. E ele surgia, com um terno cinza bem escuro, cheiro de cigarro misturado com perfume e bebida. 

O que aconteceu ficou entre eles. E jamais ela esqueceu aquele beijo tão esperado e intenso, tão esfomeado e compatível, com gosto de Whisky, saliva, virilidade e paixão. 


Lady 


Música: Let it Happen - Tame Impala