quarta-feira, 5 de fevereiro de 2025

Escrevo te

 " - Juro! Deixe-me ver os olhos, Capitu.

Tinha me lembrado a definição que José Dias dera deles, "olhos de cigana oblíqua e dissimulada." Eu não sabia o que era oblíqua, mas dissimulada sabia, e queria ver se podiam chamar assim. Capitu deixou-se fitar e examinar. Só me perguntava o que era, se nunca os vira; eu nada achei extraordinário; a cor e a doçura eram minhas conhecidas." 

As citações de Bentinho sempre irão fazer parte de algum contexto nas estórias desta que passa longe de ser uma Capitolina, apesar de achá-la um dos personagens mais fantásticos da literatura.  Às vezes se esbarram no gosto como por exemplo, o próprio Bento Santiago, um tipo peculiar com  semblante de candura, mas que a fazia suspirar e sentir um ciúmes agridoce. Ele sabia, no fundo, como deixá-la fora do prumo, mesmo se fazendo de besta. E em contrapartida, a beleza ardente de Escobar, cujo olhar a fazia se sentir despida. 

Os olhos nunca foram de dissimulação, pelo contrário, são olhos de jabuticabas redondinhas e madurinhas no pé. Olhos que gostam de mergulhar bem fundo e penetrar lá no âmago. Até lembram um pouco o olhar despudorado de Escobar, mas não teve a oportunidade de lançá-lo. Porém, já o colocou na lista de desejos alcançáveis. 

Perdoe-me, Bento Santiago da esquecível, mas nunca inesquecível célebre tarde de Novembro que eu nunca esqueci, mas agi como os acusadores condenaram Capitu: uma traidora. Entretanto, é sabido que jamais a condenei e nem a condenarei, pensamentos não são "traíveis", apenas confessáveis se a consciência sentenciá-los, e não farei um "mea culpa" se deleitei-me deles e neles. 

Não foi com Escobar, pois ele esteve apenas na mente de Bentinho. Até então tinham algumas semelhanças pois ambos eram platônicos, imaginativos, intocáveis, apesar da vontade ser de não apenas tocá-lo, mas de tê-lo bem perto, sentindo a temperatura aumentar e a respiração ofegar. O cheiro, o gosto, a textura da pele e dos cabelos. O tamanho do sorriso, a estatura, o porte e a intensidade do abraço. 

Foi assim, sem esperar, sem combinar, sem maiores produções, foi como uma negligência de quem se distrai e, num lapso muito curto toma um xeque mate depois de anos e anos de estratégias furadas tentando mexer uma peça de xadrez para se desencurralar. 

Como um desejo que se roga todos os dias, com os olhinhos fechados pedindo aos céus que se realize e numa despretensão, se é atendido. 

Talvez também, como aquelas mensagens que a gente envia sem esperar nada, mas querendo esperar tudo e de repente, eis que surge o presente mais desejado de várias cartas enviadas no Natal e não atendidas, por causa de algum mau comportamento que nem se lembra mais ter cometido. 

E foi assim, tipo Olavo e Bebel na cena mais previsível de todas, mas que fazia o coração dos que torciam por eles disparar, com o beijo que a calava no meio da frase antes que saísse algo inapropriado. "Repete! Eu sou uma piscininha." 

Não deu tempo de emagrecer, se maquiar, pentear os cabelos direito, procurar uma roupa adequada... Foi assim, meio Bridget Jones, totalmente atrapalhada, estabanada, sem saber o que fazer com as mãos, o que falar, como agir, como respirar direito com a intensidade daquele beijo, parecia até que era a sua primeira vez de tão tola que pareceu. Nunca imaginou que Monsieur Matelas pudesse fazer um estrago desses. 

Monsieur, aguardo-vos
para uma retratação e ratificação e muitas outras taças de vinhos, preciso continuar plantando aquela sementinha e mostrar que eu também tenho um ladinho que gostaria que você conhecesse. 

Despeço-me afirmando que "para te escrever eu antes me perfumo toda" e escrevo sorrindo. 


Um beijo,

Dra. Bia Flor 


Música - SZA - BMF

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